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A Pensar Alto...

A Pensar Alto...

Seg | 07.09.20

Laranjada 'à la camarada'

Vânia Pimenta

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Estou sentada na cozinha, há espera que uns ficheiros subam para a 'drive', particularidades de quem deixou o pequeno quarto feito escritório por um lugar mais amplo e iluminado. Percebi, entretanto, que quando o tempo passa e a velocidade de 'upload' não o acompanha, tudo o que dantes nos passava ao lado, como aquela chávena que está no mesmo sítio há quinze anos e ninguém usa ou dá pela falta dela, se torna interessante. Ao olhar para a fruteira reparei ainda nalgo que 0,000000000001% da população deve notar: as laranjas ficam sempre por cima. Tenho duas fruteiras na mesa e ambas com frutas diferentes têm as laranjas por cima, não ao lado, não por baixo (claro, podiam pisar!), mas por cima. Curiosamente todos os outros tipos de fruta estão, mais coisa menos coisa, alinhados equilibradamente.

 

Enquanto reparo em coisas de quem está a passar pelo tédio de uma rede ligeiramente lenta e irritante, de repente, percebo como uma dessas laranjas me faz lembrar o PCP. Aliás, olhando bem mais de perto compreendo alguns laivos de semelhança com o partido de esquerda. Não se nota? Não por ser redonda, não por ser laranja, que é a cor de outro partido, não pela textura, não pelo sumo, não pelas várias sobremesas que se podem fazer, mas espremendo bem, só e apenas porque ficam acima na "hierarquia da fruteira".

 

Olhando bem, passou-se exatamente o mesmo na laranjada do festival levado a cabo estes últimos dias. Ora, num país e num mundo, onde cada vez somos mais parte de um todo conectado, não percebo, de todo, como é que todos se unem para travar uma pandemia devastadora e ao mesmo tempo pode haver um partido político a levar a cabo um festival, ainda que seja político como apregoam? Quando temos todos os outros partidos a adiarem os seus comícios de 'rentrée'? Como pode um partido político, que tem o poder de voto nas decisões que nos afetam a todos, pensar que a realização da Festa do Avante é algo imprescindível?

 

Como Platão bem dizia "o Homem é, naturalmente, um animal político", e se esse Homem vive em Portugal, vive numa República. Ora, quem faz da sua vida profissional a tomada de decisão e zelo pela coisa pública jamais deveria ter sequer o intuito de a colocar em risco, não enquanto estrutura política, mas naqueles que a compõem. Assim como o Homem é "um animal político", ele é também um animal social, que não está só. E não estando só, tem "obrigação moral" de tomar o outro enquanto ser igual a si, com os mesmos direitos e deveres. Se um quer estar são, por que coloca em risco o outro?

 

Nada deveria estar acima do bem comum, da saúde comum. Espremendo bem, pode não haver um único caso de Covid-19 proveniente da Festa do Avante, pode não acontecer mal nenhum por se ter realizado, mas pelo facto de ser ter corrido o risco enquanto todos os portugueses lutam por conter esta pandemia já é vergonhoso. Se os milhões de portugueses e entidades se esforçam para travar a Covid-19 e são obrigados a medidas de contenção, por que é que há um partido que pode ficar acima dessa obrigação?

Deixemos de tratar os outros como maçãs e o que 'dá jeito' como laranjas. O PCP esteve no topo da fruteira e agora esperemos não ter de lidar com uma valente laranjada nos próximos dias, camaradas!