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A Pensar Alto...

A Pensar Alto...

Sab | 19.09.20

"No mundo todos somos um pedaço de algodão"

Vânia Pimenta

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"Mas sabes...eu tenho a certeza de que no mundo todos somos um pedaço de algodão. Quando o algodão é apanhado das plantas é só uma "bola de pelo" com sementes e algumas impurezas lá pelo meio. Quando olhamos, não nos parece nada de especial , não vemos nada de espetacular ali, até que um dia olhamos para a montra de uma loja e lá está o algodão, agora, numa linda camisola. Assim somos todos nós. Porque ainda não conseguimos ver a camisola bonita, não significa que não somos um bom algodão".

in Ei, Onde Estão Os Pais?

Sex | 18.09.20

P.S. Não, os judeus não foram responsáveis pelo Holocausto

Vânia Pimenta

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Desde sempre me lembro de nos tempos de escola a disciplina de História ser a minha favorita. Quase ninguém gostava porque "era uma seca" diziam eles, e acrescentavam "o que é me interessa o que aconteceu há cem anos?", "já não vai mudar nada e não tenho nada a ver com isso", sem saberem que só conhecendo o passado se vive o presente e tenta preparar o futuro. Sempre discordei ao máximo desta visão. Mas não foi a minha visão sobre o que os meus colegas achavam que me trouxe até este texto, ou pelo menos, não particularmente. Aliás cada um tem a sua opinião e a minha não é regra nem a certa.

Estava a desbloquear o telemóvel quando decidi abrir a barra lateral de notificações de notícias do Google, e eis que leio "Um em cada dez jovens adultos americanos diz que os judeus foram responsáveis pelo Holocausto". Li mais três vezes para perceber se estava mesmo a ler o que estava na frente dos meus olhos. Teria rasteira? Seria um título para captar a atenção do leitor e depois não era bem assim a notícia? Acreditei que sim e no mesmo instante decidi abrir.

Abri e sim era verdade. A notícia falava de um inquérito realizado a jovens adultos americanos pedido pela Conferência para Reivindicações Materiais Judaicas contra a Alemanha, uma instituição que além de outras coisas defende a preservação da memória histórica dos judeus vítimas de Holocausto.

Estas foram alguns dos resultados desse inquérito: "Quase dois terços dos jovens adultos norte-americanos não sabem que seis milhões de judeus foram exterminados durante o Holocausto, e um em cada dez acredita que os judeus foram responsáveis pelo Holocausto. Além disso, cerca de metade não consegue nomear um campo de concentração ou um gueto criado durante a II Guerra Mundial."

Perante isto, fiquei com pena que se desconheça aquela que para mim é uma das piores realidades de sempre da História da humanidade, a par com a escravatura. Não interessa se são americanos, portugueses, chilenos ou o 'diabo a quatro', interessa que estamos a perder-nos na História, e nem cem anos recuamos para a perder. Poderiamos discutir os diferentes ensinos nos diferentes países, claro e isso daria pano para mangas, mas o que sinto, é que cada vez mais se sabe menos.

Os 'millenials' e 'Z's' continuam nas stories que duram 24 horas, que são 'fancy' e divertidas, e que fazem a vida valer um bocadinho a pena...para que é que vou fazer biscoitos 'fit' se não puder mostrar que estou 'in' a ninguém? Continua-se a dar valor ao efémero e pode ser que a eternidade também assim se torne.

Há espaço para tudo, mas não é bom quando há espaço para nada. Eu sou livre porque penso, porque leio e porque procuro aprender com quem sabe mais do que eu. A ignorância é boa para quem se quiser tornar numa marioneta onde se lhe decide todos os movimentos e como deve viver. Esse é o  mundo que mais me assusta e onde acredito que já começamos a viver.

Não, pode não afetar em nada o meu dia-a-dia e o meu presente não saber o que foi o Holocausto, mas não é garantia de que não vai afetar o meu futuro. 

P.S. Não, os judeus não foram responsáveis pelo Holocausto e não, não tinham 5G de dados móveis nos seus telemóveis. Interessados agora?

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Leia aqui o artigo do Público.

Qui | 17.09.20

Vila Nova de Mil Livros

Vânia Pimenta

A chuva chegou e lá fora já se ouvem alguns trovões, é o prenúncio que queríamos poder adiar por mais uns tempos e deixar o verão fazer morada durante mais uns dias, uns bons dias. Pelo menos para mim seria essa a vontade.

Mas no que termina há sempre algo para recordar e, este verão foi muito, mas muito, muito bom. Entre sol, idílicas praias, gastronomia, souvenirs e tanto de bom, houve também 'Letras' presentes.

Pois bem, a surpresa estava em Vila Nova de Milfontes, realmente 'princesa' do Alentejo, um pequeno paraíso perto de nós portugueses e que vale bem a pena, tudo é lindo e não me lembro de nada que não gostasse. Quer dizer, exceto um restaurante 'traiçoeiro', mas que não vem agora ao caso.
Mesmo no centro de Vila Nova de Milfontes dei de caras com uma ideia que achei extraordinária. Uma cabine "telefónica" ao estilo britânico, mas de livros: uma cabine de leitura.

Levar, Doar, Ler, Envolver é o mote para um troca de livros bem criativa e que gostava de vir a replicar na minha cidade. Um bom incentivo à leitura, em que não ter dinheiro não é motivo para não ter um livro que nos chame à atenção e em que a ideia de trocar livros com tanta gente, de tantos sítios e nacionalidades é simplesmente deslumbrante.

Um aplauso a esta grande iniciativa que me deixou apenas com pena de não ter comigo um livro que pudesse trocar.

Para finalizar, a última frase exposta na cabine de leitura é a mais pura verdade e que devia fazer todos refletirem sobre o estado da literatura em Portugal e sobre os hábitos de cada um de nós. Citando:

Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem

Mário Quintana

Vila Nova de Mil Fontes, Mil Encantos e Mil Livros

Seg | 07.09.20

Laranjada 'à la camarada'

Vânia Pimenta

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Estou sentada na cozinha, há espera que uns ficheiros subam para a 'drive', particularidades de quem deixou o pequeno quarto feito escritório por um lugar mais amplo e iluminado. Percebi, entretanto, que quando o tempo passa e a velocidade de 'upload' não o acompanha, tudo o que dantes nos passava ao lado, como aquela chávena que está no mesmo sítio há quinze anos e ninguém usa ou dá pela falta dela, se torna interessante. Ao olhar para a fruteira reparei ainda nalgo que 0,000000000001% da população deve notar: as laranjas ficam sempre por cima. Tenho duas fruteiras na mesa e ambas com frutas diferentes têm as laranjas por cima, não ao lado, não por baixo (claro, podiam pisar!), mas por cima. Curiosamente todos os outros tipos de fruta estão, mais coisa menos coisa, alinhados equilibradamente.

 

Enquanto reparo em coisas de quem está a passar pelo tédio de uma rede ligeiramente lenta e irritante, de repente, percebo como uma dessas laranjas me faz lembrar o PCP. Aliás, olhando bem mais de perto compreendo alguns laivos de semelhança com o partido de esquerda. Não se nota? Não por ser redonda, não por ser laranja, que é a cor de outro partido, não pela textura, não pelo sumo, não pelas várias sobremesas que se podem fazer, mas espremendo bem, só e apenas porque ficam acima na "hierarquia da fruteira".

 

Olhando bem, passou-se exatamente o mesmo na laranjada do festival levado a cabo estes últimos dias. Ora, num país e num mundo, onde cada vez somos mais parte de um todo conectado, não percebo, de todo, como é que todos se unem para travar uma pandemia devastadora e ao mesmo tempo pode haver um partido político a levar a cabo um festival, ainda que seja político como apregoam? Quando temos todos os outros partidos a adiarem os seus comícios de 'rentrée'? Como pode um partido político, que tem o poder de voto nas decisões que nos afetam a todos, pensar que a realização da Festa do Avante é algo imprescindível?

 

Como Platão bem dizia "o Homem é, naturalmente, um animal político", e se esse Homem vive em Portugal, vive numa República. Ora, quem faz da sua vida profissional a tomada de decisão e zelo pela coisa pública jamais deveria ter sequer o intuito de a colocar em risco, não enquanto estrutura política, mas naqueles que a compõem. Assim como o Homem é "um animal político", ele é também um animal social, que não está só. E não estando só, tem "obrigação moral" de tomar o outro enquanto ser igual a si, com os mesmos direitos e deveres. Se um quer estar são, por que coloca em risco o outro?

 

Nada deveria estar acima do bem comum, da saúde comum. Espremendo bem, pode não haver um único caso de Covid-19 proveniente da Festa do Avante, pode não acontecer mal nenhum por se ter realizado, mas pelo facto de ser ter corrido o risco enquanto todos os portugueses lutam por conter esta pandemia já é vergonhoso. Se os milhões de portugueses e entidades se esforçam para travar a Covid-19 e são obrigados a medidas de contenção, por que é que há um partido que pode ficar acima dessa obrigação?

Deixemos de tratar os outros como maçãs e o que 'dá jeito' como laranjas. O PCP esteve no topo da fruteira e agora esperemos não ter de lidar com uma valente laranjada nos próximos dias, camaradas!