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A Pensar Alto...

Ter | 30.06.20

Dom Quixote de 'La Verguenza'

Vânia Pimenta

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Não existe dimensão para quantificar o quanto gosto e admiro os meus avós e depois deste texto ainda mais um bocadinho.

Em tempos de pandemia e de quarentena, tomo os livros como agências de viagens que nos podem transportar para outros tempos, lugares e obviamente histórias. Tanto assim que me vejo, neste momento, a ler mais do que um livro ao mesmo tempo.

Estou a terminar um da fantástica obra de Eça de Queiroz e, sendo um escritor que gosto muito de ler, decidi ler toda a obra que deixou. Por isso, andei a vasculhar a biblioteca do meu avô. Sempre gostei de ver o que tinha por lá e gostava de um dia conseguir ler todos aqueles livros interessantes, à primeira vista, e muito variados. Além disso já costumo “assaltar” as estantes há uns bons anos. Adiante.

Sei que o meu avô tem uma grande coleção das obras de Eça de Queiroz, naquelas capas que já não se fabricam, com as folhas já amarelas de tantos anos à espera na prateleira com um cheiro muito peculiar: cheira a livro antigo, mas com muito valor. O pó por muito que se limpe insiste em pousar naquelas páginas como outrora pousara a imaginação de quem as redigiu.

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Em conversa corriqueira a um almoço ou jantar de família, no meio de um tema que não era a literatura e do qual já não me lembro bem, eis que o meu avô comenta que está a ler Dom Quixote de La Mancha. Assim passa um bom tempo das suas tardes de quem além de reformado está, agora, também confinado.

Centenas de páginas que na casa dos 80 anos não assustam o homem que, mais uma vez digo, muito admiro. Acho impressionante como é que numa idade em que já muito se viveu e experienciou, alguém busca conhecimento e cultura sempre, sempre, sempre.

Estamos a falar de um homem, tenho de escrever Homem, que mesmo não tendo tido possibilidades financeiras para estudar além da famosa “quarta classe” e desde muito tenra idade ter de trabalhar para ganhar algum dinheiro para a família, tem a noção da importância da leitura e de procurar conhecimento, ainda que surja camuflado de forma de entretenimento durante as tardes.

Essa atitude faz-me pensar sobre a minha geração. Onde é que um ensino mais modernizado, contemporâneo, a que todos têm acesso, com igualdade de oportunidades no ensino, com todas as comodidades e preocupações por parte do sistema educativo para que todos possam ter o ensino que necessitam, falhou?

Como é que a minha geração se tornou avessa à literatura? Como é que superfluidades como reality shows, conteúdo oco de onde nada se retira, de onde não é preciso atenção, de onde não é preciso inteligência para entender se tornou o auge dos interesses? Não há nenhum mal nesses conteúdos, é muito bom ter algo ‘soft’ para ver de vez em quando…mas o que aconteceu com os livros?

Não sei e daí o título desta pequena reflexão. Dom Quixote de La Verguenza, porque embora não seja vergonha da minha geração e outras estarem bem longe de se interessarem por livros, sinto uma certa pena. É claro que ninguém é obrigado a gostar de ler, mas acredito que ao longo do tempo esse gosto foi-se erroneamente perdendo. E sim, comparado com a vontade de se instruir do meu avô, acho que a nossa geração leva uma abada…